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Globalização e a categoria geográfica das redes

     Globalização é o processo de integração do cenário mundial nos âmbitos social, econômico, cultural e político. Caracteriza-se pela intensificação dos fluxos internacionais de produtos, pessoas e capitais e pelo aumento da difusão das informações, auxiliada pelo aparecimento de novas tecnologias. 

    Como afirmado acima, as tecnologias de ponta apresentam papel fundamental no processo da globalização, por facilitarem a troca de informações entre diferentes partes do mundo e auxiliarem a produção de mercadorias. Pode-se afirmar que, desde a Guerra Fria, com as corridas armamentista e espacial entre EUA e URSS, o mundo está passando por uma revolução tecnológica nas telecomunicações e transportes, intensificando os fluxos internacionais. Atualmente, os containers padronizaram o transporte de mercadorias no mundo todo, enquanto os satélites e cabos de fibra óptica permitem comunicação quase instantânea. 

    O uso de celulares e da internet, a automação das indústrias, a informática e o desenvolvimento de nanotecnologia e biotecnologia transformam a economia e influenciam a globalização. Outro fenômeno decorrente da aparição de novas tecnologias é a chamada compressão espaço-temporal, caracterizada por uma aparente redução nas distâncias de um ponto a outro do mundo, já que os meios de transportes se tornaram extremamente eficientes e velozes. Pode-se observar tal compressão através da ideia de que, em 500 anos, o tempo necessário para o cruzar o Oceano Atlântico passou de poucos meses (a barco) para poucas horas (de avião). 

    No cenário mundial globalizado, a pesquisa e produção de tecnologias tornou-se um diferencial entre países, através da busca por supremacia no âmbito de conhecimento e fazer tecnológico, que garante diversas vantagens. Atualmente, pouquíssimos países possuem a capacidade de inovação e o capital para investimento, o que os caracteriza como potências de enorme influência global.

    A liberação do comércio mundial também é um importante pilar do mundo globalizado, em que práticas protecionistas de mercado tornaram-se menos comuns. A Organização Mundial do Comércio (OMC) regula as trocas de mercadorias entre diferentes países, estimulando governos a diminuírem ou acabarem com taxas alfandegárias e mediando as relações comerciais entre nações. Tal abertura do mercado internacional teve impactos em todos os continentes do mundo, mas beneficiou, principalmente, os países da tríade, os três polos econômicos mundiais: EUA, União Europeia e Japão  e China. 

    Até a década de 1980, as grandes empresas mundiais concentravam fornecedoras em volta de si e abasteciam, principalmente, o mercado interno de um país. Entretanto, a globalização favoreceu o surgimento de transnacionais, empresas com sede em um país e diversas filiais distribuídas ao redor do mundo. A produção das transnacionais é frequentemente repartida em diversos países, buscando territórios menos desenvolvidos onde há mão-de-obra barata, isenções fiscais e legislação trabalhista pouco rígida. Infelizmente, isso muitas vezes leva à exploração do trabalho de populações vulneráveis, com situações análogas à escravidão. A expansão das transnacionais aumentou em muito a produção em escala global e o volume do comércio internacional. 

    É no contexto do mundo globalizado que também passa-se a exigir dos trabalhadores uma melhor qualificação e especialização em determinada área, já que a indústria é cada vez mais autônoma e a capacidade de lidar com novas tecnologias faz-se cada vez mais necessária. Assim, aumentam as taxas de desemprego no mundo e, apesar de que a promessa da globalização é de um mundo integrado e igualmente desenvolvido, a desigualdade social torna-se crescentemente maior. Grande parte da população dos países menos desenvolvidos encontra-se sem acesso a sistemas adequados de saúde, educação e saneamento, além de mais de um bilhão de pessoas no planeta passarem fome. Tal desigualdade é facilmente explicitada pelos dado de que as 85 pessoas mais ricas do planeta apresentam riqueza equivalente à das 3,5 bilhões mais pobres.

    O processo de globalização relaciona-se estritamente com a categoria geográfica das redes, que estuda o espaço sob o ponto de vista de pontos fixos (cidades, aeroportos, centros financeiros...) ligados por fluxos (de pessoas, mercadorias, capital, informação...). Nas redes pode-se observar a presença de pontos centrais, ligados por muitos fluxos a outros pontos, e de pontos de menor centralidade, as periferias, mais isoladas e conectadas a poucos outros pontos. Tal dinâmica também pode ser observada no mundo globalizado, visto que os processos mencionados favorecem a formação de áreas dominantes, potências centrais (como os países da tríade), que exercem grande influência sobre áreas de menor importância, periferias (África, América Latina, Ásia central). A dinâmica centro-periferia pode ser facilmente identificada no contexto de migrações, turismo e transporte de mercadorias no mundo, todas estas influenciadas pelo processo de globalização. 

     A globalização também apresenta diversas consequências no cenário cultural, pois contribui para a predominância dos valores de uma cultura dominante sobre as culturas locais, provocando uma certa alienação cultural. A mídia e as novas tecnologias possuem papel fundamental na promoção da cultura dominante, pois divulgam os valores e ideias de seus anunciantes, levando à criação de uma indústria cultural. Atualmente, a internet se tornou o principal veículo de comunicação e, consequentemente, a maior propagadora dos valores da indústria cultural.   

    Todos esse processos contribuem para a criação de uma sociedade de consumo, na qual se valoriza muito a posse material, e de uma cultura globalizada muito mais influente do que as culturas locais das periferias. Ainda assim, pode-se observar grande desigualdade no acesso aos meios de comunicação, principalmente em regiões de menor importância e desenvolvimento. Grande parte da população mundial ainda não tem acesso à internet. 

    Outro impacto da globalização foi a mudança do sistema de produção nas fábricas. A partir de 1908, depois da Segunda Revolução Industrial, surgiu o Fordismo, modelo de montagem criado pelo estadunidense Henry Ford. A fabricação em larga escala do modelo Ford T, que alcançou enorme popularidade naquela época, ocorria da seguinte maneira: As peças necessárias eram fabricadas dentro da empresa, e armazenadas em enormes estoques. Os operários deviam somente se preocupar com as ordens de seus superiores e as tarefas imediatas, forçados a acompanhar o ritmo de produção da esteira. A produção em larga escala fordista diminuía os preços de produção e aumentava a margem de lucros, apesar de gerar desemprego.

    Entretanto, no contexto do mundo globalizado, surgiu, no Japão, um novo modelo de montagem, o Toyotismo, caracterizado pela terceirização da produção de peças e os pequenos estoques, já que a empresa somente requisita os materiais quando necessário (Just-in-time). O toyotismo é um resultado das limitações de produção e custo de armazenamento em um pais de tamanho reduzido, como o Japão. Os operários desse modelo podem parar a produção a qualquer momento se identificarem algum problema e são reconhecidos por sua capacidade de propor soluções, ao contrário do fordismo. 

    A globalização também fez com que empresas passassem a adotar diferentes estratégias para dominar um mercado. Destacam-se:

Monopólio: Refere-se à situação na qual somente uma empresa detém controle da maior parte de um mercado ou a sua integridade. É considerado ilegal, de maneira a estimular a competitividade entre empresas e para que o consumidor não seja refém de uma única companhia, sendo obrigado a consumir seu serviço. 

Oligopólio: Concentração do poder de mercado na mão de poucas empresas. Não é considerado ilegal, mas também não é estimulado, de maneira que haja maior competitividade no mercado. 

Cartel: Taxação ilegal de um preço comum por empresas concorrentes, rompendo o princípio de livre concorrência no mercado e mantendo os consumidores reféns de um mesmo preço.

Dumping: Adoção, temporariamente, de um preço muito baixo nos produtos de uma poderosa transnacional, o que leva as empresas locais a quebrarem, por não poderem oferecer preço tão baixo. Após eliminar a concorrência, a transnacional volta a taxar seus produtos com um preço alto. Também é considerada prática ilegal. 

Trust: Ocorre quando uma grande empresa torna-se detentora de diversas outras, formando um enorme conglomerado econômico. Pode passar a falsa impressão de que o consumidor tem direito de escolha sobre o produto que compra, mas, na verdade, diversas concorrentes de um mesmo mercado são filiais de uma mesma empresa maior. Por isso, também é combatida pelos sistemas judiciais de diversos países. 

    A globalização quer fazer a população mundial acreditar no fato de que o mundo tornou-se homogêneo, integrado e ao alcance de todos. Essa fábula criada pela indústria cultural é chamada de "aldeia global", e é fácil perceber que busca a disseminação de uma ideia falsa, pois as desigualdades nunca foram tão grandes e somente um pequeno grupo de países detém grande poder e influência sobre os outros. Assim, pode-se afirmar que o fenômeno da globalização realmente proporciona a competição em larga escala no mercado internacional, mas falha em promover maior colaboração mundial e  equalização do acesso às condições de vida, informações e participação no cenário internacional. Ao invés disso, reafirma o poder conquistado pelas potências globais, que se tornam ainda mais influentes.

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